A minha companheira abortou

Aqui pode encontrar testemunhos de homens cujas companheiras que abortaram.

Alguns dos testemunhos usam nomes fictícios, por forma a manter a privacidade de quem envia os testemunhos.

Se desejar enviar-nos o seu testemunho, como alguém que realizou um aborto ou alguém que acompanhou outra pessoa neste processo, teremos todo o gosto em publicá-lo. Para o efeito utilize o nosso formulário de contacto.

João Macedo

Sendo homem, obviamente nunca "abortei" no sentido literal, físico e pessoal do termo, mas fi-lo moralmente, isto é, a minha namorada abortou e eu participei em todo processo.

Foi em 2001, tinha a nossa relação quase 4 anos. Nos primeiros anos ela tomava a pílula, mas não se dava muito bem com ela. Deixou de tomá-la e eu passei a usar o preservativo, mas como não gostávamos da diminuição da sensibilidade, do cheiro, do ritual a-erótico da sua colocação, nem sempre o utilizávamos. Por exemplo, nos dias seguintes à menstruação, quando ela não estaria a ovular, não usávamos e mais para a frente no ciclo voltávamos a usar. Naquele mês de Fevereiro a coisa correu mal: estupidamente, prolongámos demasiado tempo o período de relações sexuais não protegidas. Em Março ela começou a desconfiar que podia estar grávida. Numa sexta-feira de manhã foi a um laboratório de análises e constatou que sim: a "cor" ainda não era muito carregada, mas não havia grandes dúvidas.

Não foi preciso qualquer discussão para se decidir se ela optaria pelo aborto ou não. Na realidade não foi preciso trocar uma única palavra, não houve nenhum momento em que um olhasse para o outro e perguntasse "E agora, o que fazemos?", pois eu sabia o que ela pensava e ela sabia que eu pensava o mesmo que ela: não desejávamos filhos, sempre estivemos em grande sintonia em termos de valores éticos e morais e comungávamos (e ainda comungamos) das mesmas convicções quanto ao aborto (fizéramos activamente campanha e votáramos Sim em 1998 e não havia entre nós qualquer dúvida quanto à legitimidade da opção pela interrupção da gravidez por parte da mulher). Por isso a decisão não foi "difícil", no sentido em que houvesse dúvidas entre abortar ou não, ou no sentido em que demorássemos a decidir. Mas não foi uma decisão "fácil" no sentido em que fosse algo que encarássemos de ânimo leve, não era uma coisa banal: estávamos apreensivos, não com a moralidade da opção, mas um pouco com a ilegalidade (por causa do risco) e muito com os perigos para a saúde (durante, imediatamente após o aborto e em termos futuros). Apesar do tempo de gravidez ser pequeno (umas 5 semanas), decidimos que o aborto seria mais garantido se evitássemos os fármacos e fôssemos a uma clínica.

Por coincidência e para aumentar a ansiedade, nesse fim-de-semana ela tinha de estar fora do país. Era uma coisa inadiável e só voltaria segunda-feira. Mas antes de partir ainda conseguiu saber de uma clínica (em Portugal) onde era possível abortar, aparentemente com todas as condições médicas. A informação era parcial (a localidade), mas com a ajuda das Páginas Amarelas (era uma clínica como outra qualquer) consegui descobrir o número de telefone.

Durante o fim-de-semana fui levantando dinheiro no Multibanco (obviamente o pagamento seria em dinheiro e eu não sabia quanto custaria, pelo que joguei pelo seguro e fiz vários levantamentos, pois esgotava o limite diário). Nesse domingo telefonei para a clínica e com tom ansioso disse à telefonista que queria marcar uma "consulta de ginecologia e obstetrícia com carácter de urgência" (mais tarde soube que a "senha" habitual era outra). A telefonista percebeu, passou-me a outra pessoa que me fez um breve interrogatório: se a minha namorada era adulta (sim, completamente) e quanto tempo teria em princípio a gravidez. Face às respostas apresentou-me o preço, que era muitíssimo mais baixo do que eu alguma vez pensara. Ainda assim achei por bem continuar com os levantamentos, pois tinha medo de haver alguma complicação e acabar por ser preciso mais dinheiro e eu não o ter prontamente ali (de certeza que no banco da terra, que era um meio relativamente pequeno, se sabia que a clínica fazia abortos ilegalmente e seria óbvio o que um forasteiro com pressa ali estava a fazer, para além de que não queria que no meu extracto bancário constasse um movimento feito na tal terra). Acabei por levantar 3 ou 4 vezes mais dinheiro do que me tinham dito ser necessário levar. A consulta ficou marcada para a manhã da terça-feira seguinte.

A minha namorada voltou na segunda e eu pu-la a par de tudo. Arranjámos cada um a sua desculpa nos empregos e no dia seguinte metemo-nos à estrada. Não me lembro se falámos durante a viagem ou se íamos calados (penso que não). Sei é que eu ia com remorsos adicionais: não só sentia muita culpa por ser co-responsável por ela estar a passar por aquilo (e eu não, ou pelo menos infinitamente menos), como ainda por cima tinha de ser ela a conduzir, pois eu sempre fui avesso a carros e não tinha carta de condução. Encontrámos logo a clínica, que estava cheia (velhotes e assim). Apresentámo-nos na recepção e eu voltei a repetir a fórmula "consulta de ginecologia e obstetrícia com carácter de urgência". Ainda tivemos de esperar um pouco até que a minha namorada foi chamada e eu fiquei sozinho (no meio de doentes que esperavam e dos seus familiares). Lembro-me perfeitamente que levei um livro para ler: achei que daria um ar mais natural à coisa, demonstraria menos ansiedade (seria mais um acompanhante de um doente a apanhar "seca" na sala de espera). Mas penso que para alguns (se não para todos) seria óbvio o que ali estávamos a fazer: o meio, como disse, era pequeno e nós éramos claramente de fora. Julgo também ter detectado entre os restantes pacientes à espera outra mulher (sozinha) que estaria ali para abortar: tinha um ar deslocado, quase etéreo e lembrou-me a minha namorada sem ser fisicamente parecida a ela. Não me lembro quanto tempo esperei mas não foi pouco. Mais tarde a minha namorada disse-me que primeiro lhe fizeram exames para comprovar a gravidez, como se fosse uma consulta normal de ginecologia. Só depois da confirmação é que se falou de aborto e ela entregou o dinheiro. Acho que foi anestesia local, mas não tenho a certeza. Entretanto eu esperava, fingindo que lia. Quando já não aguentava disfarçar, saí e fui comprar um ramo de flores a uma florista que tinha visto enquanto estacionávamos. Deixei-as no carro para não parecer suspeito (ninguém dá flores a quem vai a uma consulta...). Quando voltei à clínica a minha namorada já estava cá fora, algo irritada (não sabia onde eu tinha ido) e com um ar de quem só queria sair dali. Voltámos para casa, ela uma vez mais a conduzi e eu a sentir-me o maior inútil: fazia merda e nem livrá-la da condução numa situação daquelas eu conseguia.

Pelo caminho falámos do que se passou. Ela contou-me as recomendações que lhe deram: pôr gelo na zona do ventre nesse dia (não ir trabalhar), não me lembro se tomar algum antibiótico, e em caso de complicações ligar-lhes imediatamente e não ir a nenhum hospital público que eles tratariam de tudo. E nada de sexo durante 3 semanas. Perguntei-lhe se a tinham tratado bem: disse-me que sim, que uma das enfermeiras tratara-a constantemente por "minha querida" e enquanto esperava que o efeito da anestesia passasse até lhe fizera uma carícia na cara. E antes de sair perguntaram-lhe se morava longe (uns 150 km), se viera de carro ou em transportes públicos, se estava sozinha ou acompanhada. Uma atitude diametralmente oposta ao que uma prima lhe contara ter-se passado com ela uns 15 anos antes, em que uma "curiosa" a quem essa prima recorrera não só não usara qualquer anestesia como, tendo-a magoado com um gesto mais brusco ou inapto, e tendo a prima dela soltado um gemido de dor, a abortadeira rudemente comentou: "Geme praí, que também gemeste a fazê-lo!" (Acho que esta história me foi contada nestas circunstâncias, mas talvez eu a tenha ouvido noutra situação. Confesso que não tenho 100% de certezas quanto a isso.)

No dia seguinte a minha namorada deu-me um texto de meia página. Escrevera-o na tarde a seguir ao aborto e começava assim: "Que te dizer neste dia em que desfiz no meu corpo a efémera presença do teu?" Continuava falando da imensa solidão que sentira naquele dia ("estar a sós com o próprio corpo"), apesar daquilo que notara em mim (os "olhos raiados da angústia em não poderes ultrapassar os limites físicos do teu corpo e fazer tua a minha pele, teus os meus medos": nunca o duvidei, mas mesmo em situações adversas é bom saber que quem amamos nos sabe ler tão bem). E terminava: "Do dia de hoje, recordarei o rosto da minha solidão, a fatalidade do teu olhar e do teu amor. Tudo límpido, transparente, sem máscaras." Ainda hoje guardo esse texto e não consigo lê-lo sem me comover.

Sinal de remorsos ou sentimentos de culpa? Em relação à opção pelo aborto, nenhuns. Eu ainda tenho e creio que sempre terei um certo sentimento de culpa por ter contribuído para fazer a minha namorada passar por toda aquela situação, com os riscos e as consequências que isso pode ter para a saúde dela (ouvi dizer que interromper a gravidez aumenta as probabilidades de cancro da mama, mas não sei se é verdade pois há muita desinformação intencional). Quanto ao feto, nenhum dilema moral: um ser não autónomo, não equiparável a um efectivo ser humano e infinitamente menos importante do que a minha namorada. Hoje, passados quase 6 anos, não temos dúvidas quanto ao acerto da opção tomada, nem que se acontecer uma nova gravidez será para abortar. Mas, obviamente, não queremos de todo que tal aconteça: ela na altura retomou a pílula e agora usa o Evra. À cautela eu uso também o preservativo. Sempre. Ainda hoje tenho memorizado no meu telemóvel o número da clínica. Mais do que para acautelar qualquer necessidade pessoal (espero bem que não!), guardo-o porque os serviços foram bons, penso que acessíveis, e se puder indicá-la a alguém que precise é o que farei. Nestes 6 anos só o fiz uma vez. Foi a uma colega de uma amiga minha, que ainda teve de lhe emprestar dinheiro: os familiares da rapariga são muito conservadores, acham e dizem quase com as letras todas que as mulheres em geral (incluindo a minha amiga) são umas putas. A excepção, claro, é a filhinha deles, que com quase 30 anos ainda julgam ser virgem...